segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Foco, Força, Fitzgerald

Em campo, pronto para a batalha. / Foto: azcardinals.com

Timing. Talvez seja a palavra que melhor define a vida de um jogador profissional de futebol americano. Estar no lugar errado na hora errada termina carreiras. Em casos menos dramáticos, desperdiçar a hora certa em lugares errados pode significar perder o ápice técnico e atlético em uma equipe não competitiva.

Semana sim, outra também, desde o fim da aclamada carreira de Kurt Warner, esse parecia ser o caso de Larry Fitzgerald, um dos melhores wide receivers de sua geração, abandonado e órfão de quarterback no quente deserto do Arizona, cujo calor parecia jamais abrandar o frio da alma de um time que padecia sem um lançador.

Mas enquanto outras estrelas provavelmente forçariam uma troca, trocando os milhões dos Cardinals por milhões de um time que não vivesse à mercê de John Skelton, Max Hall e similares, Fitz perserverou – e muito além do trabalho comunitário e dos tweets que pediam foco, força e fé, mostrou a um estado inteiro a diferença entre grandes jogadores e ídolos.

FOCO


Com Kurt Warner, a melhor parceria da história da pós-temporada. / Foto: Jamie Squire 

Os primeiros anos depois da Universidade de Pittsburgh foram complicados. Em seu ano de calouro, o carrossel de quarterbacks de Arizona parou em Josh McCown (13 partidas), Shaun King (2) e John Navarre (1). Mesmo assim, as 780 jardas e 8 touchdowns mostravam que Fitzgerald era, sim, um jogador especial, que floresceria sob o sistema certo.

E não demorou muito para que do asfalto dos Cardinals brotasse uma flor. Foi com o já veterano Kurt Warner – duas vezes MVP da liga, uma vez jogador mais valioso do Super Bowl e dono de um anel de campeão da NFL – que o recebedor nascido em Minnesota começou a escrever seu nome na história do futebol americano.

Isso porque Warner encontrou em Arizona mais do que um lugar tranquilo para passar seus últimos anos antes da aposentadoria; foi com os Cardinals que sua carreira renasceu, a de Larry nasceu e os fãs descobriram que aquele tal de futebol podia ser bem divertido.

Foram 5 temporadas de parceria, entre 2005 e 2009 – embora Warner tenha dividido os deveres de líder do ataque com Josh McCown e Matt Leinart nesse período. Em 4 delas, Fitz teve ao menos 96 recepções e 1.090 jardas, exceção feita a 2006, quando perdeu 3 jogos e mesmo assim adicionou 946 jardas ao total de sua carreira.

Para ornar com as estatísticas, reconhecimentos: 4 seleções ao Pro Bowl, uma ao primeiro time All-Pro, uma viagem ao Super Bowl – ironicamente perdida pelo mesmo braço que levara o time tão longe – e duas aparições nos playoffs, em 2008 e 2009.

Mas até mesmo as melhores parcerias acabam. Quando se despediu do esporte, Kurt Warner pareceu também promover a despedida dos tempos de glória que a torcida dos Cardinals sempre sonhara. E Larry Fitzgerald, também.

FORÇA

Em 2010: muitos QBs, pouca qualidade. / Foto: azcardinals.com

Sem Warner nem Leinart – passado-presente e passado-futuro da franquia – caiu no colo de Derek Anderson, Pro-Bowler com os Browns em 2007, a titularidade em 2010. Há piores. E podia ser pior, como ficou provado quando Max Hall e John Skelton se revezaram na posição mais importante do esporte. Mesmo assim, Fitzgerald sobreviveu, com 1,137 jardas e mais uma eleição ao Pro Bowl.

2011 e 2012 foram a mesma música e a mesma dança. Mas se na primeira temporada do biênio os Cardinals respiraram um recorde na média, impulsionados pelas 1,411 jardas aéreas de Fitzgerald (segunda melhor marca na sua carreira) recebendo passes de Kevin Kolb e John Skelton, em 2012, derradeiro ano de Ken Whisenhunt a frente do clube, o tradicional 5-11 voltou a bater à porta do University of Phoenix Stadium. Pior: o camisa 11 teve o pior desempenho da sua carreira, com apenas 798 jardas e 4 touchdowns.

Portanto, força para superar o poço sem fim em que ele parecia ter caído era necessário. Mas mais uma vez aquele ditado de que a noite é mais escura antes do nascer do sol provou-se verdadeiro.

FORÇA²

 Palmer para Fitz: a volta dos velhos tempos. / Foto: Ross D. Franklin

A força de superar tornou-se a força em campo. Carson Palmer, depois de uma passagem frustrada em Oakland, aportou no estado do Grand Canyon junto a Bruce Arians, ex-técnico interino dos Colts. A princípio, acreditou-se que Palmer – que jamais fora um grande quarterback em seu tempo de Bengals – fosse apenas uma transição até um jovem lançador tornar-se a face da franquia alvi-rubra (Logan Thomas?).

Ledo engano. Assim como Kurt Warner oito outonos antes de 2013, só que com muitas distinções a menos, Palmer reencontrou seu melhor futebol-da-bola-oval sob a batuta de Arians, guru ofensivo que desponta como um dos melhores novos técnicos da liga.

O segundo renascimento dos Cardinals passava pelo mesma estação do primeiro: Larry Fitzgerald. Embora 2013 ele não tenha, pelo segundo ano seguido, conseguido 1,000 jardas – ficando a apenas 46 do platô – e 2014 tenha sido marcado por lesões próprias e de Palmer, deixando Arizona à mercê de Ryan Lindley e uma das piores performances ofensivas da HISTÓRIA da pós-temporada, 2015 tá aí.

FITZGERALD

Em 2008, a melhor de todas as pós-temporadas. / Foto: Zimbio.com

30 recepções. 546 jardas. 7 touchdowns. O que muitos wide receivers medianos conseguem em uma temporada Larry Fitzgerald conseguiu em quatro jogos. Essa foi a pós-temporada mágica de 2008, que de vez escreveu seu nome no panteão dos grandes recebedores contemporâneos da liga – e que provavelmente será seu epíteto quando, em cerca de uma década, receber seu busto em Canton e sua jaqueta dourada.

Some e a isso o fato que ele é o jogador mais jovem a chegar às 11,000 jardas recebidas, 700, 800 e 900 recepções e você entenderá porque ele merece o Olimpo da NFL. Note que ele escreveu seu nome ao lado de praticamente todos os recordes dos Cardinals que um WR pode ter e ficará claro porque ele é ídolo de um estado inteiro.

Já são 333 jardas e 5 touchdowns em 2015, incluindo o primeiro jogo de 3 escores da sua carreira, semana passada, contra o Chicago Bears.


E com um novo ACL para Carson Palmer, um novo contrato para si e um Chris Johnson buscando sua redenção, a hora é agora para os Cardinals mostrar o outro lado de sua força. E Fitzgerald colher os louros por sua paciência.

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